30 de setembro de 2020 In Familia, Sociedade

OS LIMITES DA GERAÇÃO “MIMIMI, NUTELA E REPRIMIDA” E SEUS REFLEXOS NO AMBIENTE DAS FAMÍLIAS.

Este artigo tem o condão de esclarecer a quem possa interessar, que essa geração de filhos e pais que atualmente, podem ser encontradas aos milhares, são, na minha opinião profissional, o reflexo da MITIGAÇÃO E QUASE EXCLUSÃO DAS BASES DE “FAMÍLIA” nos lares das pessoas nos dias atuais.

                                         “Você me diz que seus pais não te entendem/Mas você não entende seus pais/Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo/São crianças como você/O que você vai ser/Quando você crescer (Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo – 1992)”. A letra já diz tudo, nenhuma geração entende a outra. Cada qual, mimimi, nutella ou reprimida, reclamam. Choques de valores entre gerações, sempre existiram, sempre existirão. No Mundo das Ideias, tudo é ordenado, perfeito.

                                         Preguiçosos, desanimados, vagabundos, encostados as custas dos pais e dos avós. Assim são nomeados, pelos reprimidos, os mimimis e nutellas. A vida nunca foi fácil, fato, mas há considerações relevantes. Filhos de 30, 40, 50 anos, que ainda não deram certo na vida, que não trabalham, que não querem trabalhar, querem sim, estar dentro de casa usufruindo do que os pais construíram, querem sim, ser sustentados e serem tratados como “reizinhos” (aqui incluo todo mundo, homem, mulher, gay, lésbica, trans, e tudo mais, como sempre indicou a norma culta, sem a palhaçada de hoje em dia).

                                         As gerações MIMIMI e NUTELLA são consideradas, pela geração reprimida, superficiais, exigentes, indecisas, orgulhosas de suas intelectualidades (questionam os grandes filósofos da humanidade), sem identidade pessoal (efeito manada), sentimental demais (não aceitam pena de morte), assassinas de fetos (aborto), esquizofrênicas contra a sociedade patriarcal (machismo), viciadas (fumadores de maconha), libertinas (liberdade sexual), politicamente corretas (cerceamento da liberdade de expressão), sensíveis pelas condições das minorias, irresponsáveis, preguiçosos, mal educadas etc.

                                         A geração REPRIMIDA não tinha liberdade de expressão. Diz-se que há uma espécie de “máscara de ferro”[1], isto é, não se pode falar mais nada que é crime. O Código Penal existe desde 1940, nele estão previstos os crimes contra a honra (arts. 138, 139 e 140) os quais, existem muito antes das gerações nutrella e mimimi.

                                         Antes de 1988, a Justiça Brasileira somente era acessível para quem tinha dinheiro, logo, quais cidadãos iriam provocá-la?

                                         Antigamente, em um país, como o nosso, o qual considero racista e preconceituoso, chamar alguém de “macaco”, de “miquimba”, por exemplo, não era vergonhoso, mas, uma especie de direito à liberdade de expressão. O cidadão, vulgo, “macaco”, que se sentisse incomodado, ofendido mesmo e não tivesse dinheiro para exigir defesa de sua dignidade nada podia fazer — além disto, não raro o vulgo era considerado (etiquetado) como criminoso, já que possivelmente tinha ocupação e moradia condizentes com o perfil de um criminoso — CONSEQUÊNCIA – ficava calado.

Era escutar e se sujeitar ao vexame. Indo um pouco além, a mulher que fosse atacada por algum homem, como podia reagir? Na geração reprimida, a mulher era “a” reprimida. Aí da mulher que fosse querer exigir sua autonomia da vontade, a sua liberdade sexual, todo peso da Justiça (machista) recairia sobre ela — Com o advento da Lei Maria da Penha[2] a situação mudou, um pouco.

                                         Atualmente, temos um avanço nesse sentido de liberdades, mas, ainda considero que parte desse povo todo, digo parte dessa geração se tornaram, segundo a psicanálise “PAIS TÓXICOS[3]”. São “Pais que pensam que ajudam ou protegem os filhos. No entanto, causam o efeito contrário. Ainda que alguns possuam as melhores intenções na educação dos filhos, conseguem chegar ao extremo entre o desleixo e a superproteção”.

                                         Em linhas gerais, tem-se que esse descuido, ou super cuidado, acarreta danos ao lado mental e emocional da criança. “Poucos imaginam que estão preparando um adulto instável e alquebrado para as dificuldades reais da vida. Os pequenos, incapazes de determinar contradições comportamentais, não sabem distinguir o certo do errado quanto aos pais. Acabam se tornando reféns de uma educação defasada e ardorosa”. São pais que querem e fazem de tudo para serem amados por seus filhos… “bullshit” (tradução:besteira), como diriam alguns!

                                         Pais de gerações passadas (assim como os meus), não faziam questão de serem amados, faziam questão de passar para os filhos, os valores morais, os limites, boas maneiras, davam a ordem e, a tinham como imperiosa, com isso, depreendiam a construção de caráter e hoje essa mesma geração, gasta uma fortuna com psicanalistas para que estes profissionais ensinem aos sues filhos de 30, 40 e até mais 50, que eles são é uns folgados, mimados, usurpadores, narcisistas, verdadeiros, “ADULTOCENTES”, adultos cronologicamente falando, mas, com comportamento de adolescente.

                                         O prazer do “sim” é muito mais verdadeiro e construtivo quando a criança conhece e entende o significado do “não”. A geração parafusos de geleia[4] desconhece ou não sabe lidar com o “não”. Se levam um apertão, desintegram-se. Não aguentam ser contrariados. Não foram educados para suportar o “não”.

                                         Os parafusos de geleia têm uma baixa autoestima, porque foram regidos pela educação pelo prazer. Muitos pais acham que dar boa educação é deixar o filho fazer o que quiser, isto é, procurar dar-lhe alegria e prazer a maior parte do tempo. Não é isso que cria a autoestima.

                                         Segundo alguns especialistas, jovens entre 23 e 30 anos se revelam cada vez menos preparados para vivenciar situações desafiadoras que surgem em meio às empreitadas do mercado de trabalho. como essa geração poderia evitar o famoso mimimi e lidar com crises e questões pertinentes à sua vida e carreira? Se você faz parte dessa geração a dica é uma só: no lugar de assumir uma postura de constantes e intermináveis reclamações, que tal ficar sempre motivado e dedicar esforços para progredir na sua carreira buscando soluções dentro de você mesmo?

                                         Por fim, o que se constata é que os três estereótipos (mimimi, Nutella e reprimida) compõe uma Geração Egoísta, que não querem ajudar os pais, não se preocupam em fazer com que os pais tenham uma terceira idade mais tranquila, não possuem compaixão pelos pais.

                                         A Constituição em seu Art. 229 define “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”  e o próprio Estatuto do Idoso[5] surge como uma forma de regular e detalhar o Artigo 229 da Constituição Federal, que define “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”.

A visão do STJ:

                                           O Ministro João Otávio de Noronha[6], foi o relator do Agravo em Recurso Especial e manteve o veredicto exarado pelo TJ-SP, sob o fundamento de que “Embora se constate um alto grau de conflito entre os curadores dos apelantes e os apelados, a relutância destes em ao menos contribuir com as altas despesas dos seus pais idosos e enfermos (que lhes doaram todo o seu patrimônio, com reserva de usufruto) causa revolta e evidencia ingratidão. Nesse contexto, atento ao binômio necessidade/possibilidade evidenciado nos autos, considero que os alimentos devem ser arbitrados em montante equivalente a um salário mínimo, a ser pago por cada um dos requeridos, o que muito contribuirá para a manutenção dos alimentandos. Com o já observado, não podemos esquecer que eles, durante toda a vida, não mediram esforços para possibilitar aos filhos desfrutar do conforto que atualmente usufruem. Portanto, nada mais justo que os requeridos ajudem os pais neste momento de extrema necessidade, desonerando, um pouco, os irmãos que deles cuidam (fls. 1.156/1.159).

                                         Do que se pode concluir com tal julgamento pelo “Tribunal da Cidadania” é que no caso concreto, a despeito do cuidado com os pais, preconiza que assim como no caso deles para com os filhos, alinha-se ao STF, que considera a PATERNIDADE SOCIO AFETIVA, como uma realidade na composição familiar moderna[7], Esse entendimento está em consonância com a orientação dada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a repercussão geral do tema no RE 898.060/SC, Relator Ministro Luiz Fux, DJe de 24/8/2017, preconizando que “a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com todas as suas consequências patrimoniais e extrapatrimoniais”. Com efeito, a multiparentalidade é admitida tanto pelo STJ, como pelo STF.

                                          Que os pais possam se conscientizar QUE NÃO NECESSITAM DO AMOR DOS FILHOS E SIM DO RESPEITO DELES, pois, nesse sentido, havendo RESPEITO, já estarão demonstrando o AMOR e, é como canta Almir Sater[8] :”…É preciso amor, Pra poder pulsar, É preciso paz pra poder sorrir, É preciso chuva para florir, Penso que cumprir a vida, Seja simplesmente, Compreender a marcha, E ir tocando em frente ….”

Como posso me preparar para entender a fragilidade dos meus pais e valoriza-los positivamente? Os filhos de hoje estão preparados para cuidar dos Pais na velhice?

Fica a indagação e à consideração do leitor.

Fabio de Carvalho Couto carioca, roqueiro e advogado com muito orgulho e amor pelo que faz em nome de um bem maior que é a luta pela prevalência dos direitos das liberdades.


[1] “Homem da Máscara de Ferro” foi Luís de Bourbon, Conde de Vermandois, um filho ilegítimo de Luís XIV.

[2] LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006

[3] https://www.psicanaliseclinica.com/o-que-sao-pais-toxicos/

[4] Tiba, Içami, Quem Ama, Educa! – Formando Cidadãos Éticos – Versão Atualizada. Marca: Integrare.

[5]O Estatuto do Idoso – Lei 10.741 de outubro de 2003.

[6]AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1.622.309 – SP (2019/0353087-8);

[7]AGINT NOS EDCL NOS EDCL NO RESP 1607056 SP 2016/0150632-0;

[8]Sater, Almir, “Tocando em Frente”, 1992.

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